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Liberdade

Pequeno e breve arquivo sobre o cerco por Filipe Nunes Vicente

Liberdade

Pequeno e breve arquivo sobre o cerco por Filipe Nunes Vicente

Miterrand, Le Pen, o PS e o Chega

FNV, 25.09.22

A teoria é velha. Hoje ( CM) o João Pereira Coutinho  renovou-a: é do interesse do PS que o Chega cresça de modo a dividir a direita. O pretexto seria o obstáculo que o PS colocou à aspiração de Ventura de ter um vice presidente da AR. A tese de JPC é a de que assim o PS favorece a vitimização do Chega.

A teoria -  o fermento fornecido por socialistas aos movimentos de extrema-direita - é velha porque Miterrand foi acusado disso em 1986. A introdução do sistema proporcional permitiu à Frente Nacional entrar no parlamento. Roland Dumas explicou mais tarde que fez parte da táctica ainda que fosse uma ideia generosa. O livro de Emmanuel Faux - La Main droite de Dieu. Enquête sur François Miterrand et l'extrême droite  - dá voz a tal táctica: puxar a Frente Nacional para a ribalta para tornar a direita inelegível. Imbert, o homem do Le Point,  dizia ( numa crónica de Abril de 1988)  que se a direita moderada de Chirac não tivesse tido vergonha de assumir parte da herança tradicional da direita francesa Le Pen não teria crescido. Talvez, mas hoje aqui neste textito os actores são outros.

O PS tem interesse num Chega ruidoso e gaspiadeiro? Claro que tem, mas para pena minha esse interesse e as manobras coevas que o PS desenhar fazem tanta falta como a água no mar. O PSD e a IL estão convencidos de que o poder está por dias e lutam no covil pelo melhor naco do pernil. Se a IL lá vai mantendo algum rigor táctico, este PSD resto de colecção agarra ( promete)  tudo o que voe no ar. O Chega não precisa do PS para nada: faz-te de morto e não te farão levantar.

 

As sandálias do pescador: Marcelo, o pior PR pós-74

FNV, 19.09.22

O sistema semi-presidencial resultou das alterações  provocadas pelo esvaziamento progressivo do papel do Conselho da Revolução. M.I. Rezola e David Castaño mostram-no muito bem na segunda parte do seu trabalho. Eanes e depois Soares, Sampaio e Cavaco cumpriram o que se esperava de um PR. E o que se espera não é um contra-poder nem um alter-poder, é... um poder.

O que faz o actual PR e que poder exerce? Temos duas sandálias. A primeira será pensar que exerce o seu poder por  detrás do candelabro. Um Liberace trabalhador incansável e discreto só pausando para uma fria vichyssoise.  Longe das luzes equilibra a acção do governo. A outra sandália é o afecto pelo povo. Beijos, abraços, conforto, palavras sempre oportunas sobre tudo e um par de botas ( excepto o caso BES/Ricardo Salgado, claro). É bizarro.

Se exerce o seu poder equlibrando a acção do governo, é cúmplice entusiasmado da inércia política total desde 2015. Se entende o seu poder como a mistura entre  um comentador televisivo e um bispo da igreja universal do reino de deus, podemos perguntar por que razão não está na TVI ou numa igreja.

A verdade é simples. Marcelo tem um único objectivo: ser recordado como mais popular PR da História. Por isso não exerce poder nenhum. Mário Soares teria já feito cinquenta visitas a hospitais, com os jornalistas a reboque, mostrando o caos. Marcelo não quer perder a simpatia geringonçal nem enfrentar a trituradora mediática do PS: prefere comentar o caso dia, seja ele futebol ou um acidente de viação.

Marcelo esvaziou o cargo com método e inteligência. Faz-te de morto e não te farão levantar: aplaudem-te.

Quem anda com um coxo acaba a coxear

FNV, 12.09.22

A estratégia  deste PSD resto de colecção passa por pedir mais. Assumir na direita o papel que o  Bloco desempenhou na geringonça. Estão assim convencidos de que matam dois coelhos de uma cajadada: exploram a crise ganhando a confiança dos funcionários públicos e pensionistas ( que decidem as eleições) e afastam o anátema do PSD de Passos. Parece boa no papel como todas as estratégias. Ou tácticas.

Convoquemos um velho conhecido. Clausewitz dedica o  Livro III do Da Guerra à estratégia em geral. A página tantas explica a diferença entre as decisões  tácticas e estratégicas. Na táctica a decisão é no campo de batalha, rápida e voluntariosa; na estratégia a decisão requere muito mais força de vontade. Ou seja, tudo sendo mais lento e analisado, é necessário esse espírito forte para ultrapassar as indecisões e o excesso de análise.

A dúvida fica assim lançada. Esta estratégia é afinal uma táctica? A inflacção e a guerra  ucraniana apareceram de sopetão. Este PSD vestir a pele de um Bloco pode ser uma boa táctica. O problema é que se o cenário muda, também de repente, o partido fica preso ao disfarce. E o original - toda  a esquerda das garantias - está mais apto a convencer as pessoas.

Sim, quem anda com um coxo aprende a coxear  mas não fica coxo.

 

 

Boa cepa liberal

FNV, 31.01.22

O bolor de Abelaira no PSD

FNV, 31.01.22

Foi no final do século passado ( Fevereiro de 1999)  que Bourdieu apresentou em Lyon as ideias que viriam  a constar  em Propos sur le champ politique ( PUL, 2000) . Se o seu conceito de campo politico já era conhecido, nesse trabalho foi mais longe e antecipou, com notável presciência, muito do que observamos hoje. O campo político sofre de uma crise de representação  : a delegação política   já não é suficiente para compreender as relações entre  percepção do mundo social e a luta política. Bourdieu anunciava o aparecimento de relações  diferentes das que os velhos actores do campo politico cultivaram:  a colusão permamente ( alianças e conspirações)  visando a manutenção  da autoridade política e a delegação  política  montada para perpetuar essa colusão.

O que assistimos no PSD, hoje, é uma aula prática da previsão ( entretanto confirmada)  de  Bourdieu.  Incapaz de se ligar ao mundo social,  a actual direcção enredou-se nos velhos esquemas, reproduzindo a dominação de maneira sistémica. Os eleitores normais, olhando para o espectáculo, captam a cadaverização do campo. Se se podem divertir olhando com curiosidade  a performance da mulher peluda, tenderão, no entanto, a afastar-se higienicamente.

Como no  Bolor, de Abelaira, a relação entre o país e o partido  parece-se cada vez mais com o casamento de Humberto e Maria dos Remédios. Numa relação gasta, Humberto começa a escrever um diário para combater a solidão. Maria também começa a escrever no diário do marido, lamentando a falta de diálogo e de  emoções. E assim comunicam. Ou parece que comunicam.

 













 


Uma delícia

FNV, 29.01.22


Carta de Eça a Fialho depois deste ter desancado aquele a propósito de Os Maias. Publicada pela primeira vez por

Fidelino de Figueiredo in Revista de História vol. 9-12, 1914.

 

 

 

Os Franceses falam muito do espalhafato que faz Satanás quando o mergulham
dans un bénitier. Eu nunca assisti a esta escandalosa afronta feita ao venerável Pai
da Mentira; nem você também, suponho eu. No entanto imagina você bem como
Belzebuth berrará e escoicinhará, ao sentir o contacto untuoso do detestado líquido.
Pois, querido Amigo, assim eu escoicinhei e berrei, enquanto você, com mão dura
e forte, me estava mergulhando na água benta da sua crónica sobre Os Maias.
Você concordará que esta analogia é rigorosa. Eu, com efeito, represento para
você Satanás, o pai de toda Falsidade. Eu sou aquele Mafarrico que escolhe para
personagens do seu livro não sei que janotas petulantes e estrangeirados, em vez de
dar, nessas páginas, o lugar preeminente ao Marquês da Foz, aos empreiteiros das
obras do Porto de Lisboa, aos rapazes beneméritos que foram premiados na escola,
aos construtores do bairro da Estefânia, ao Conselho de Estado, etc., etc. Eu sou
aquele Porco-sujo que pretende que as mulheres de Lisboa têm amantes e que, nos
jantares de Sociedade, em vez de discutirem Hegel, o Positivismo e a Psicologia das
religiões, falam de criadas e de cabeleireiras! Eu sou aquele génio de Maledicência,
que afirma que os esplendores da Avenida são talvez inferiores aos da Via-Ápia, e
que a Sociedade que a frequenta não é talvez nem a mais culta nem a mais original
do Universo, etc., etc., por aí além.
Por outro lado a sua crónica, meu caro Fialho, é uma bela pia de mármore, cheia
a transbordar da água benta da Virtude, do Patriotismo, e da fé em Lisboa como
capital da civilização. E portanto o que você fez, com a sua costumada veemência,
foi plonger le diable dans un bénitier. Daí os berros e os coices.

 

Coices e berros, sobretudo de espanto. Porque enfim, eu tudo podia esperar do
seu espírito, tão impressionável e ardente, menos essa atitude de pudicícia ofendida
e de magoado patriotismo. O que era com efeito de esperar, dada a sua índole e os
seus escritos, era que você criticasse o livreco, sob o ponto de vista do próprio livreco:
e que, como legionário da mesma Legião, ocupado também neste belo trabalho
da literatura contemporânea que consiste em fazer o inquérito experimental das
sociedades, me censurasse só por os meus golpes não serem bem destros, nem bem
certeiros, nem bem úteis, nem bem claros, nem bem eficazes. Mas vê-lo de repente
surgir no campo inimigo com uma sobrecasaca séria de conselheiro de Estado,
gritando – Em Lisboa não se deve tocar! Tudo aqui é puro, belo, e grande! Vergonha
ao maldizente que ouse rir da cidade incomparável, perfectissima urbs!, eis o que
verdadeiramente me assombrou. Porquê, tão singular mudança? Ó Fialho, foi você
eleito Director-Geral dum Banco? É você o inspirador dum sindicato? Recebeu você
das mãos do monarca a Grã-cruz de Santiago? Está você Director-Geral duma grande
repartição do Estado? Que interesse supremo o fez aliar-se ao conselheiro Acácio? Está
você por acaso apaixonado pela mulher de Acácio, e finge-se assim pudico, ordeiro
e patriota, para lisonjear o benemérito e cornudo homem?... Sapristi, je crois que
j’ai touché juste! Nessa sua crónica sobre Os Maias, Fialho, há uma mulher! Se assim
é, (e estou certo que é assim) como você deve ter sofrido, pobre amigo! Conheço
essa situação, é medonha!... É ela ao menos bonita e cochonne?
Sério, sério – a sua crónica escrita, com a sua costumada verve, espantou-me.
Que você fizesse ao calhamaço um ereintement de primeira classe, bem está! O grosso
cartapácio, com mil bombas, fervilha de defeitos! As duas próprias cenas que você
incondicionalmente louva, estão bem longe de me agradar! Mas que você fizesse
a vista grossa sobre esses defeitos, para se lançar sobre mim com indizível fúria e
acusar-me de falta de respeito pelas nossas virtudes, pela nossa elevação moral, pela
grandeza da nossa civilização, e pelo esplendor de Lisboa como capital – é forte! Cousa
espantosa ver o meu velho e rebelde Fialho repetir, quase ipsis verbis, um grande
rasgo patriótico do Tomás Ribeiro, há anos, nas Câmaras, declarando “traidores os
que faziam, em escritos públicos, a crítica dos nossos costumes”! O Ramalho fez,
sobre essa saída do lírico da Judia, um artigo extraordinário nas Farpas.
Esta carta já vai longa. E não me alargo por isso mais, além deste ponto de vista
da sua crónica, – que foi o que me impressionou. Havia porém nela ainda outros
detalhes, que eu desejaria discutir com você, violentamente. Assim diz você que os
meus personagens são copiados uns dos outros. Mas, querido amigo, numa obra que
pretende ser a reprodução duma sociedade uniforme, nivelada, chata, sem relevo, e
sem saliências, (como a nossa incontestavelmente é) – como queria você, a menos
que eu falseasse a pintura, que os meus tipos tivessem o destaque, a dessemelhança,
a forte e crespa individualidade, a possante e destacante pessoalidade, que podem
ter, e têm, os tipos duma vigorosa civilização como a de Paris ou de Londres? Você
distingue os homens de Lisboa uns dos outros? Você nos rapazes do Chiado, acha
outras diferenças que não sejam o nome e o feitio do nariz? Em Portugal há só
um homem – que é sempre o mesmo ou sob a forma de dandy, ou de padre, ou de
amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso,
palrador, deixa-te ir; sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as
circunstâncias. É o homem que eu pinto, – sob os seus costumes diversos, casaca
ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal
que vemos.
Outra coisa bem singular é você duvidar da exactidão de certos detalhes, traços
de sociedade, como as senhoras falando de criadas ou apostando dez tostõezinhos nas
corridas, etc.. Oh homem de Deus, onde habita você? Em Lisboa ou Pequim? Tudo
isso é visto, notado em flagrante, e por mim mesmo aturado sur place!
Mas não palremos mais. Vocês em todo o caso, hão-de findar por me fazer
zangar. O Carlos Valbom acusa-me de escrever à francesa, e com galicismos que o
arripiam: e diz isto em períodos absolutamente construídos à francesa, e metendo
em cada dez palavras cinco galicismos! Você, por outro lado, nunca tomou a pena,
que não fosse para cair sobre os homens e as coisas do seu tempo, com um vigor,
uma veia, um espírito, um éclat que fazem sempre a minha delícia. E quando eu
faço o mesmo, com mais moderação, infinitas cautelas, et une touche très juste
você aparece-me, e grita “aqui d’el-rei patriotas”! É escandaloso. Para vocês tudo é
permitido: galicismos à farta, pilhérias à pátria à bouche que veux-tu! A mim, nada
me é permitido! Ora sebo!
Positivamente basta de cavaqueira.
Diga ao Oliveira Martins, que eu lhe mando por este correio mais fradiquice. E
você, caro Fialho, creia sempre na sincera estima e verdadeira admiração, com que
lhe aperta a mão o seu muito amigo

Eça de Queiroz
Bristol, 8 de Agosto de 1888

A grande ilusão (da direita portuguesa)

FNV, 01.11.21

A antiga formulação da abiogénese, mais conhecida como teoria da geração espontânea, assegurava que a vida nascia a  partir da matéria morta.

A grande ilusão de que existe uma direita  portuguesa sobreviveu graças a uma série de acasos e circunstâncias excepcionais. Quando Freitas do Amaral, Victor Sá Machado  e Adelino Amaro da Costa fundam o CDS, o emblema do partido significava o centro entre duas correntes ( esquerda e direita) : centro democrático social. Por seu turno, Sá Carneiro era um socialista democrático da linha alemã ( da RFA)

O socialismo democrático que propomos é um desafio constante à
participação ativa de todo o Povo e não apenas à dedicação dos nossos
militantes.
É isso a social ‑democracia: realização de socialismo em liberdade se

gundo a cadência de reformas, determinada pelo voto popular, para cons

trução de uma sociedade liberta da exploração e da lei do lucro.

É essa a única experiência histórica de socialismo em liberdade.

(Discurso no Comício no Porto, 29 ‑11 ‑74)

 

O que a AD fez foi apenas a normalização da vida política : da  extinção do Conselho da Revolução à neutralização do tom leninista:

A Constituição, de acordo com o meu projecto, deixa de ser uma Constituição
dogmática, no sentido de impor a transição para o socialismo no sentido de adop-
tar concepções marxistas e até nalguns casos marxistas-leninistas, luta de
classes, da construção do poder dos trabalhadores, entendido como a construção
duma sociedade sem classes, antes procura ser uma Constituição o mais aberta
possível. Eu, pessoalmente entendo que uma Constituição deve ser a Lei Funda-
mental que aponta os princípios essenciais à acção política da defesa da pessoa,
da promoção dos direitos económicos e sociais, mas que dentro dela é necessário
que caibam vários programas de partidos, de várias opções políticas".

(https://institutosacarneiro.pt/library/files/volume_6.pdf)

 

Com as duas maiorias  de Cavaco ( o acaso mitológico da rodagem do Citroen que afinal até já estava rodado) o PPD-PSD , sozinho, geriu os fundos comunitários  onde todos comeram (foi uma  altura em que até  muitos revolucionários aprenderam o prazer dos merecedes-benz)  e fez reformas tão avançadas como a televisão privada. Não buliu  uma palha na organização clientelar-assistencialista que o Estado se encarrega de organizar.

Depois, exceputando os  curtos momentos de music-hall de Durão Barroso  e o de circo de Santana, o PS sentou-se à mesa e distribuiu os convites: de Guterres a Sócrates. A bancarrota, uma circunstância excepcional mas normal,  irritou as pessoas. O governo de Passos foi o de um porteiro de discoteca:  cumpriu ordens e contou os minutos para ir para  a cama. As várias  esquerdas agradeceram a possibilidade de dar uso aos autocarros, aos sonhos do PREC  e aos amigos nas televisões e jornais. Na primeira oportunidade o PS institucional reocupou o lugar à cabeceira da mesa.

 

Um país com muitos pobres e remediados e com 750.000 funcionários públicos ( muitos deles também pobres e remediados)  dispensa aventuras. A exploração do discurso  da inveja contra os ricos, que por serem poucos são em regra matreiros,  aldrabões e agarrados ao Estado,  garante longa vida ao imaginário socialista. Só ao imaginário, porque a menor alusão a violenta experiências  colectivizantes  penduraria no pelourinho os pequenos  candidatos a bukharines.

 

A direita portuguesa foi assim, sempre, de reacção e sobrevivência. Podemos perguntar: e por que não pode continuar a sê-lo? Porque o que lhe garantiu esse estatuto desapareceu. Os velhos morreram, os novos abraçam causas culturais (nas quais são criados desde tenra idade), o grosso da população não vê nada na direita  que o  PS não consiga fazer  tão bem ou melhor e com uma vantagem: com o discurso da consciência social que sossega a individual.

Para a Pátria  e a Ordem temos a selecção e a polícia, a família e o pudor  morreram abraçados, a economia não está bem mas nunca mais esteve desde a perda do Brasil ( que a ligava à máquina). A única hipótese da direita portuguesa  é um terreno que sempre   desprezou: a cultura. Produção teórica, persuasão, propaganda, enfim, nada de que o Gramsci já não falasse há quase cem anos. Como é óbvio, não é com analfabetos funcionais ou garranos saídos das Jotas e das associações estudantis que tal coisa vai ver a luz.

 

 

 

A tourada é uma cultura

FNV, 16.10.21

Como qualquer néscio sabe, tudo o que os humanos  produzem, ensinam, criam  e transmitem é cultura. Pode ser boa ou má, duradoura ou etérea, mas é cultura. Os leopardos e os touros vivem com o material genético que herdaram. A raposa do ártico muda a cor da pelagem de seis em seis meses quer goste do tom quer não. E nunca lhe ocorreu lançar uma linha de moda para raposas de outras latitudes nem temos notícias que algumas se oganizem em  protesto contra  esse hábito.

Os primatas são os mais inteligentes  e sociáveis do sanimais. Os humanos são os mais inteligentes e sociáveis dos primatas. Por coincidência também temos o maior neocortex. As nossas capacidades sociais são hoje associadas a várias hipóteses teóricas Uma delas, a auto-domesticação, é mui interessante. Os cães são muito menos agressivos do que os lobos. E a capacidade humana para a cooperação e o alcance de objectvos comuns não tem paralelo com a de nenhum  outro primata. A auto-domesticação parece estranha se pensarmos nas bruxas queimadas nas fogueiras, nos pogroms mais conhecidos ( os dos nazis) ou em Sarajevo, eu sei. Acontece que de um modo geral e progressivo, pensado a partir dos primeiros hominídeos,  esses exemplos são corpos estranhos numa selecção natural do comportamento não-agressivo. Os leopardos não têm tribunais, os touros desconhecem as leis de porte de arma.

 

A cultura das touradas organiza-se em torno da vida na lezíria e alimenta-se da sua transformação em espectáculo nas vilas e cidades. Ninguém vai a uma tourada para ver sofrer o cavalo ou o touro. Os rudes campinos ou os cavaleiros marialvas têm  muitas outras opções, menos complicadas, se quiserem fazer sofrer animais ou familiares. Os espectadores também.

O argumento da espectacularização da crueldade ( o único que vale  a pena discutir) é rombo. O sofrimento de touros e montadas é uma consequência do espectáculo. Como  foi a morte de  Ayrton de Senna na pista , de um trapezista ou de um boxeur. O que se passa é outra coisa.

 

Vivemos num tempo em que os animais dos documentários da National Geographic têm nome, os donos dos cães são papá e mamã e as galinhas têm estilistas de moda ( não contem às raposas do Ártico). Sim, é um traço cultural. As razões deste traço podem ficar para outro textito ( são interessantes), mas para já assinalar a ideia de superioridade cultural de uma comunidade ( a das galinhas com saias) sobre  a outra ( a das touradas). Infelizmente não é só uma ideia. O plano é a extinção em massa.

 

Garcia Lorca, aficionado, na morte do seu amigo , o diestro Ignacio Sanchez Mejias:

Comezaron los sones de bordón
a las cinco de la tarde.

Las campanas de arsénico y el humo

a las cinco de la tarde.

En las esquinas grupos de silencio

a las cinco de la tarde.

Y el toro solo corazón arriba!

a las cinco de la tarde.

Cuando el sudor de nieve fue llegando

a las cinco de la tarde

Cuando la plaza se cobrió de yodo

a las cinco de la tarde,

La muerte puso heuvos en la herida

a las cinco de la tarde.

A las cinco de la tarde.

A las cinco en punto de la tarde.

 

Lorca fazia teatro para os camponeses  analfabetos, era amigo de Rafael Alberti que escreveu Noite de Guerra no Museu do Prado ( em cuja encenação , no CITAC, Coimbra, participei em 1982). A peça é sobre o salvamento de obras de arte dos bombardeamentos franquistas.

À cautela, guardem a recato, numa cave ou num sotão,  filmes do Mário Coelho e do João Palha Ribeiro Telles.

 

 

 

Lembro-me bem

FNV, 15.10.21

O PSD colocou-se numa posição de enome fragilidade. Colocou-se sim senhor.

 

Lembro-me bem. Tudo começou em Aveiro  numa manhã enevoada de Outono em que o dr. Rio anunciou que se ia candidatar. Estava a amanhar umas lulas da costa e uma delas tinha um pequeno carapau inteiro dentro. Glutona.

 

Depois, num dia gelado de Janeiro, no ano seguinte, derrotou um jovem turco de fita vermelha na cabeça, o Pedro ( Santana Lopes). Lembro-me bem, tinha rompido um gémeo direito no ringue a fazer um low kick  com mau apoio. Apresentou uma equipa magnífica  com especial atenção à ética e à Justiça onde estrelavam Elina Fraga ( entretanto desaparecida numa missão humanitária no Ruanda) e Monica Quintela que ainda está a preparar a reforma da Justiça em Portugal e nas Berlengas. Também contou desde cedo com um arguido, o Salvador Malheiro, e um outro arguido, o  distraído  Barreiras Duarte que no final de um longo processo lá reconheceu que não era visiting scholar em Berkeley. Lembro-me bem, também eu tive  em 1979 uma  otite no ouvido esquerdo. Às vezes percebemos mal o que nos dizem.

 

Ficou famosa a vontade de dialogar com o governo da geringonça. Tão famosa e pletórica que se esgotou. Nunca conseguiu dialogar com o chefe da sua bancada parlamentar, o Hugo Soares. Lembro-me bem, nesse período andava sempre a ouvir  o hino da Maria da Fonte. Nas legislativas de 2019 conseguiu um honroso e espectacular  segundo lugar como o Carlos  Lopes nos JO de  Montreal em 1976. "Não houve desastre nenhum,  houve circunstâncias envolventes" , foram as suas imorredoiras palavras. Lembro-me bem, estava  a envolver um lombete de porco no redanho, técnica essencial para assar a vianda lentamente e sem secar.

 

Já mais recentemente o dr. Rio conseguiu a quadratura do círculo ( talvez inspirado por algum comentador residente) ao apoiar e desapoiar o acordo  do PSD com o Chega nos Açores. Não é para todos e o pobre david Diniz ainda está com as pernas enfiadas no pescoço. É simples.  Do "face ao que o Chega tem sido, descarto conversar" em Junho até ao acordo em Novembro passaram-se cinco meses, caramba. Lembro-me bem, uma vez estive com uma espinha de sardinha enfiada na garganta durante apenas oito horas e pareceu-me uma eternidade.

 

De modos que as modas agora estão assim. A fragilidade é enganadora.

O pau e as costas (3)

FNV, 12.10.21

Já vimos que não reagimos à pobreza. Agora vejamos como o ignorante de economia pode contiunar a responder as perguntas iniciais:

Somos pobres por causa do clima, do tipo de neurotransmissores, da geografia  ou de algum atavismo genético?

Fomos pobres em ditadura e  no pós- PREC, continuámos pobres em social democracia mais ou menos socialista: o que nos falta experimentar?

 

O clima tem piada. Em Melgaço chove imenso, em Mértola muito pouco.  A Guarda é fria ( sabe bem o arroz de carqueja), Tavira é quente ( fiz lá  a recruta). O Hegel tinha aquela teoria acerca do clima e dos povos. Os africanos das terras altas incultiváveis  não tinham consciência de liberdade, os indianos das planícies fertéis dedicavam-se à agricultura  e por isso alinhavam num sistema familiar patriarcal que os tornava acríticos da autoridade. Também justificava a escravatura colonial como uma primeira etapa para o desenvolvimento da Selbstgefuhl, a consciência de si mesmo.  Nesta linha doida podemos dizer que  os lusitanos sofrem de um duplo complexo histórico-geográfico: em relação aos castelhanos e à perda do Império. Ou seja, estão sempre  com medo, sempre a fugir ( emigrar), sempre desconfiados.

A desconfiança natural é um traço nosso que estabiliza um comportamento axial: o individualismo esquizóide. A Dona Idalina trabalhou para mim muitos anos. Vivia numa aldeia, a Aveleira, a dois km de outra, o Roxo, concelho de Penacova. Pois aquela mulher apenas com a 4ªclasse conseguia produzir solilóquios intermináveis  (enquanto fazíamos a meias um arroz de sardinha) sobre as diferenças entre  as gentes da Aveleira e as do Roxo. Mentais, culturais, físicas, culinárias etc. O que é notável, e quem conhece  a vida de uma aldeia sabe-o, é que depois dentro da terriola também desconfiam uns dos outros. Desavenças, invejas, disputas imemoriais e a frase que ouço mais vezes: não sou de estar a falar  ao muro, aqui cada um trata da sua vida. Deve ser por isto que os espigueiros comunitários do Soajo nos fascinam tanto. Quem são ( eram) aqueles tipos? De que nave espacial vieram? Por que aterraram em Trás-os-Montes?

 

A resistência à mudança não nasce nas árvores. O sentimento hiper-individual,  a desconfiança natural, a ideia de que se trabalharmos em grupo  ficamos  a perder -  um bloco  quase tão bom como o melhor de todos: o nosso pessimismo recalcado. Lá iremos.