Carta de Eça a Fialho depois deste ter desancado aquele a propósito de Os Maias. Publicada pela primeira vez por
Fidelino de Figueiredo in Revista de História vol. 9-12, 1914.
Os Franceses falam muito do espalhafato que faz Satanás quando o mergulham
dans un bénitier. Eu nunca assisti a esta escandalosa afronta feita ao venerável Pai
da Mentira; nem você também, suponho eu. No entanto imagina você bem como
Belzebuth berrará e escoicinhará, ao sentir o contacto untuoso do detestado líquido.
Pois, querido Amigo, assim eu escoicinhei e berrei, enquanto você, com mão dura
e forte, me estava mergulhando na água benta da sua crónica sobre Os Maias.
Você concordará que esta analogia é rigorosa. Eu, com efeito, represento para
você Satanás, o pai de toda Falsidade. Eu sou aquele Mafarrico que escolhe para
personagens do seu livro não sei que janotas petulantes e estrangeirados, em vez de
dar, nessas páginas, o lugar preeminente ao Marquês da Foz, aos empreiteiros das
obras do Porto de Lisboa, aos rapazes beneméritos que foram premiados na escola,
aos construtores do bairro da Estefânia, ao Conselho de Estado, etc., etc. Eu sou
aquele Porco-sujo que pretende que as mulheres de Lisboa têm amantes e que, nos
jantares de Sociedade, em vez de discutirem Hegel, o Positivismo e a Psicologia das
religiões, falam de criadas e de cabeleireiras! Eu sou aquele génio de Maledicência,
que afirma que os esplendores da Avenida são talvez inferiores aos da Via-Ápia, e
que a Sociedade que a frequenta não é talvez nem a mais culta nem a mais original
do Universo, etc., etc., por aí além.
Por outro lado a sua crónica, meu caro Fialho, é uma bela pia de mármore, cheia
a transbordar da água benta da Virtude, do Patriotismo, e da fé em Lisboa como
capital da civilização. E portanto o que você fez, com a sua costumada veemência,
foi plonger le diable dans un bénitier. Daí os berros e os coices.
Coices e berros, sobretudo de espanto. Porque enfim, eu tudo podia esperar do
seu espírito, tão impressionável e ardente, menos essa atitude de pudicícia ofendida
e de magoado patriotismo. O que era com efeito de esperar, dada a sua índole e os
seus escritos, era que você criticasse o livreco, sob o ponto de vista do próprio livreco:
e que, como legionário da mesma Legião, ocupado também neste belo trabalho
da literatura contemporânea que consiste em fazer o inquérito experimental das
sociedades, me censurasse só por os meus golpes não serem bem destros, nem bem
certeiros, nem bem úteis, nem bem claros, nem bem eficazes. Mas vê-lo de repente
surgir no campo inimigo com uma sobrecasaca séria de conselheiro de Estado,
gritando – Em Lisboa não se deve tocar! Tudo aqui é puro, belo, e grande! Vergonha
ao maldizente que ouse rir da cidade incomparável, perfectissima urbs!, eis o que
verdadeiramente me assombrou. Porquê, tão singular mudança? Ó Fialho, foi você
eleito Director-Geral dum Banco? É você o inspirador dum sindicato? Recebeu você
das mãos do monarca a Grã-cruz de Santiago? Está você Director-Geral duma grande
repartição do Estado? Que interesse supremo o fez aliar-se ao conselheiro Acácio? Está
você por acaso apaixonado pela mulher de Acácio, e finge-se assim pudico, ordeiro
e patriota, para lisonjear o benemérito e cornudo homem?... Sapristi, je crois que
j’ai touché juste! Nessa sua crónica sobre Os Maias, Fialho, há uma mulher! Se assim
é, (e estou certo que é assim) como você deve ter sofrido, pobre amigo! Conheço
essa situação, é medonha!... É ela ao menos bonita e cochonne?
Sério, sério – a sua crónica escrita, com a sua costumada verve, espantou-me.
Que você fizesse ao calhamaço um ereintement de primeira classe, bem está! O grosso
cartapácio, com mil bombas, fervilha de defeitos! As duas próprias cenas que você
incondicionalmente louva, estão bem longe de me agradar! Mas que você fizesse
a vista grossa sobre esses defeitos, para se lançar sobre mim com indizível fúria e
acusar-me de falta de respeito pelas nossas virtudes, pela nossa elevação moral, pela
grandeza da nossa civilização, e pelo esplendor de Lisboa como capital – é forte! Cousa
espantosa ver o meu velho e rebelde Fialho repetir, quase ipsis verbis, um grande
rasgo patriótico do Tomás Ribeiro, há anos, nas Câmaras, declarando “traidores os
que faziam, em escritos públicos, a crítica dos nossos costumes”! O Ramalho fez,
sobre essa saída do lírico da Judia, um artigo extraordinário nas Farpas.
Esta carta já vai longa. E não me alargo por isso mais, além deste ponto de vista
da sua crónica, – que foi o que me impressionou. Havia porém nela ainda outros
detalhes, que eu desejaria discutir com você, violentamente. Assim diz você que os
meus personagens são copiados uns dos outros. Mas, querido amigo, numa obra que
pretende ser a reprodução duma sociedade uniforme, nivelada, chata, sem relevo, e
sem saliências, (como a nossa incontestavelmente é) – como queria você, a menos
que eu falseasse a pintura, que os meus tipos tivessem o destaque, a dessemelhança, a forte e crespa individualidade, a possante e destacante pessoalidade, que podem
ter, e têm, os tipos duma vigorosa civilização como a de Paris ou de Londres? Você
distingue os homens de Lisboa uns dos outros? Você nos rapazes do Chiado, acha
outras diferenças que não sejam o nome e o feitio do nariz? Em Portugal há só
um homem – que é sempre o mesmo ou sob a forma de dandy, ou de padre, ou de
amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso,
palrador, deixa-te ir; sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as
circunstâncias. É o homem que eu pinto, – sob os seus costumes diversos, casaca
ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal
que vemos.
Outra coisa bem singular é você duvidar da exactidão de certos detalhes, traços
de sociedade, como as senhoras falando de criadas ou apostando dez tostõezinhos nas
corridas, etc.. Oh homem de Deus, onde habita você? Em Lisboa ou Pequim? Tudo
isso é visto, notado em flagrante, e por mim mesmo aturado sur place!
Mas não palremos mais. Vocês em todo o caso, hão-de findar por me fazer
zangar. O Carlos Valbom acusa-me de escrever à francesa, e com galicismos que o
arripiam: e diz isto em períodos absolutamente construídos à francesa, e metendo
em cada dez palavras cinco galicismos! Você, por outro lado, nunca tomou a pena,
que não fosse para cair sobre os homens e as coisas do seu tempo, com um vigor,
uma veia, um espírito, um éclat que fazem sempre a minha delícia. E quando eu
faço o mesmo, com mais moderação, infinitas cautelas, et une touche très juste –
você aparece-me, e grita “aqui d’el-rei patriotas”! É escandaloso. Para vocês tudo é
permitido: galicismos à farta, pilhérias à pátria à bouche que veux-tu! A mim, nada
me é permitido! Ora sebo!
Positivamente basta de cavaqueira.
Diga ao Oliveira Martins, que eu lhe mando por este correio mais fradiquice. E
você, caro Fialho, creia sempre na sincera estima e verdadeira admiração, com que
lhe aperta a mão o seu muito amigo
Eça de Queiroz
Bristol, 8 de Agosto de 1888